Definição estendida
Agradecimentos (acknowledgments) é a seção do manuscrito acadêmico que reconhece contribuições substantivas ao trabalho que não atendem aos quatro critérios ICMJE de autoria — concepção/análise, redação/revisão crítica, aprovação final e responsabilidade pelo trabalho. Tipos de contribuição reconhecidos canonicamente nesta seção: financiamento (com número de grant e agência específica), infraestrutura institucional (laboratórios, equipamentos compartilhados), suporte técnico (operação de equipamento, preparação de amostras, análise estatística sob direção do autor), revisão crítica de colegas em rascunhos preliminares, e — cada vez mais comum em pesquisa contemporânea — prestação de serviço técnico especializado contratado (consultoria estatística, análise computacional, edição substantiva, tradução acadêmica). Cronin (1995, The Scholar’s Courtesy) é a referência sociológica clássica sobre práticas de reconhecimento; Paul-Hus et al. (2017, Journal of Informetrics) ofereceram análise quantitativa contemporânea cruzando autoria e agradecimentos para revelar padrões de colaboração. ICMJE recomenda explicitamente que pessoas mencionadas em agradecimentos sejam informadas e tenham consentido — boa prática editorial.
Quando se aplica
Agradecimentos aplicam-se em todo manuscrito onde houve contribuições substantivas além dos autores nominados — isto é, em quase todo manuscrito. Pesquisa financiada exige declaração explícita de fonte e número de grant em conformidade com mandato do funder (ERC, NIH, NSF, FAPESP, CNPq, CAPES). Aplica-se em projetos com prestação de serviço de pesquisa contratada: consultoria estatística não-coautora, análise computacional terceirizada, edição substantiva ou reescrita acadêmica, tradução acadêmica de qualidade publicável. CRediT integra parcialmente esta função, mas agradecimentos permanecem necessários para reconhecimentos fora dos 14 papéis CRediT (financiamento institucional, suporte familiar declarado eticamente, etc.). Aplica-se na declaração de uso de IA generativa — política editorial crescente desde 2023 exige explicitar ferramentas usadas e propósito.
Quando NÃO se aplica
Não se aplica como ponte para coautoria de cortesia: pessoa que não atende ICMJE não pode ser autor; pessoa que atende ICMJE deveria ser autor (não apenas agradecida). Não substitui declaração formal de conflito de interesses — esta tem seção dedicada própria em manuscritos modernos. Não se aplica para reconhecer contribuições inflacionadas (mencionar pesquisador-líder do laboratório que não teve envolvimento substantivo no trabalho específico — prática de “honorary mention” criticada como problemática). Não se aplica em comunicação informal (posts, palestras), embora reconhecimentos sejam frequentes por cortesia.
Aplicações por área
— Saúde e biomédicas: declaração de financiamento e uso de tecidos/dados de bancos é obrigatória; ICMJE rege práticas. — Ciências sociais: reconhecimento de assistentes de pesquisa, transcritores, revisores informais; menção a participantes anonimizados em alguns casos. — Computação: reconhecimento de infraestrutura computacional (clusters, créditos cloud), revisores anônimos do paper, contribuições em código aberto. — Humanidades: tradição de agradecimentos extensos a colegas, arquivistas, bibliotecários; cultura mais conversacional.
Armadilhas comuns
A primeira armadilha é tratar agradecimentos como espaço para reconhecimentos excessivos ou sentimentais — convenção editorial moderna favorece concisão e foco em contribuições substantivas. A segunda é mencionar pessoas sem consentimento: ICMJE recomenda obter autorização escrita (especialmente quando o agradecimento sugere endorsement do trabalho). A terceira é omitir financiamento ou número de grant: omissão pode violar contrato com o funder e comprometer financiamentos futuros. A quarta é não declarar uso de IA generativa em escrita ou análise — políticas editoriais crescentes desde 2023 exigem transparência. A quinta é colocar em agradecimentos contribuições que atendem ICMJE de autoria — caracteriza ghost authorship, prática editorial inaceitável documentada em fluxogramas COPE.