ESCRITA E PUBLICAÇÃO

Peer review aberto

Termo guarda-chuva para variantes da revisao por pares que tornam transparente um processo fechado. Define-se por dois eixos independentes: identidades abertas (nome do parecerista revelado) e relatorios abertos (pareceres publicados ao lado do artigo).

Definição estendida

Peer review aberto (open peer review, OPR) é o termo guarda-chuva para as variantes da revisão por pares que tornam transparente um processo tradicionalmente fechado. Wolfram e colaboradores (2020), no primeiro levantamento abrangente de adoção, identificaram dois eixos que definem o grau de transparência: identidades abertas, em que o nome do parecerista é revelado ao autor ou publicado junto ao artigo, e relatórios abertos, em que os pareceres e as réplicas são divulgados ao lado do trabalho aceito. Sobre esses dois eixos somam-se práticas correlatas: participação aberta da comunidade, interação aberta entre as partes, revisão sobre preprints e comentário pós-publicação. A modalidade nasceu por volta de 2001, com periódicos do BioMed Central e o Atmospheric Chemistry and Physics, e cresceu de forma acelerada a partir de 2017. Não há um único formato canônico: cada editor combina os eixos de modo distinto, o que produz níveis de transparência bastante diferentes sob o mesmo rótulo.

Quando se aplica

O peer review aberto se aplica quando o objetivo é accountability: vincular o parecer ao registro público torna a decisão editorial auditável e expõe o raciocínio que levou à aceitação ou à rejeição. Aplica-se bem em campos com forte cultura de ciência aberta e em periódicos que querem dar crédito formal ao trabalho do parecerista, transformando uma tarefa invisível em contribuição citável. A evidência sustenta o uso. van Rooyen e colaboradores (1999), em ensaio randomizado clássico no BMJ, mostraram que pedir ao parecerista que se identificasse não piorou a qualidade do parecer nem mudou a recomendação. Bravo e colaboradores (2019), analisando um piloto em cinco periódicos, encontraram que publicar os relatórios não comprometeu a disposição de revisar, as recomendações nem o tempo de resposta. Aplica-se, portanto, quando se quer mais transparência sem sacrificar o rigor do processo.

Quando NÃO se aplica

O peer review aberto não se aplica de forma indiscriminada. A abertura de identidades cobra um preço: van Rooyen e colaboradores (1999) registraram que pareceristas convidados a se identificar recusaram o convite com mais frequência, e Bravo e colaboradores (2019) observaram que apenas uma minoria optou por revelar o nome quando teve escolha. Em comunidades pequenas, onde poucos especialistas se conhecem, a identidade aberta pode inibir a crítica franca e expor o parecerista júnior a retaliação de autores seniores. Não se aplica como sinônimo de relatórios abertos: revelar o nome e publicar o parecer são decisões independentes, e tratá-las como uma só confunde o desenho da política. E não se aplica onde a transparência substituiria, em vez de complementar, a mitigação de viés; nesses casos a revisão duplo-cega pode ser a escolha mais adequada.

Aplicações por área

  • Medicina e ciências da saúde: maior concentração de periódicos com OPR; histórico de revisão publicado ao lado do artigo aceito, como em parte da família BMJ e BMC.
  • Ciências naturais e física: modelos pioneiros de revisão sobre preprints com discussão pública, como no Atmospheric Chemistry and Physics.
  • Ciências da vida: relatórios abertos opcionais com identidade facultativa, padrão adotado por grandes editores multidisciplinares.
  • Ciências sociais e humanidades: adesão mais cautelosa; a cultura de comunidades pequenas e a sensibilidade a retaliação limitam a abertura de identidades.

Armadilhas comuns

A primeira armadilha é tratar “peer review aberto” como um conceito único, quando ele reúne eixos independentes que produzem transparências muito diferentes. A segunda é supor que abrir a identidade melhora a qualidade do parecer; a evidência mostra efeito nulo sobre a qualidade e efeito real apenas sobre a disposição de aceitar o convite. A terceira é ignorar a assimetria de poder: a identidade aberta pesa mais sobre o parecerista júnior que sobre o sênior, e desenhar a política sem salvaguardas penaliza quem tem menos proteção. A quarta é confundir relatórios abertos com publicação obrigatória de nomes, deixando o parecerista sem a opção de assinar ou permanecer anônimo. A quinta é publicar o histórico de revisão sem identificador persistente, o que impede a citação do parecer e anula o incentivo de crédito que justifica boa parte da abertura.

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