Definição estendida
Registered Report (relatório registrado) é um formato de publicação em que a revisão por pares e a decisão de aceite ocorrem antes da coleta de dados. O manuscrito tramita em dois estágios: no Estágio 1, o autor submete introdução, hipóteses e um plano detalhado de métodos e análise, avaliado pelo mérito da pergunta e pelo rigor do desenho, sem que se conheça nenhum resultado. Aprovado o Estágio 1, o periódico concede o aceite em princípio (in-principle acceptance), um compromisso de publicar o estudo independentemente do que os dados mostrarem, desde que o autor siga o protocolo. No Estágio 2, resultados e discussão são acrescentados ao protocolo aprovado e passam por uma segunda rodada de revisão, focada na aderência ao plano e na validade das conclusões. Chambers e Tzavella (2022) descrevem o formato como um remédio dirigido a vieses de publicação e de relato: ao decidir a publicação pela pergunta e pelo método, e não pelo resultado, ele desacopla a sorte do achado do destino do artigo.
Quando se aplica
O Registered Report se aplica a pesquisa confirmatória, com hipótese clara e plano de análise definível antes da coleta. É a forma adequada para testes de hipótese, replicações e estudos caros ou longitudinais, em que o autor quer garantir publicação independentemente do sinal do resultado. Aplica-se quando o risco de viés é alto: campos sob forte pressão por resultado positivo se beneficiam do desacoplamento entre achado e aceite. Soderberg e colaboradores (2021) compararam Registered Reports a artigos do modelo padrão e encontraram ganhos claros em rigor de método e de análise, sem perda relevante de novidade. Aplica-se também ao planejamento de carreira de pesquisadores em início, que ganham reconhecimento já no Estágio 1 e reduzem o risco de um estudo bem desenhado ficar sem publicação por dar resultado nulo.
Quando NÃO se aplica
O formato não se aplica a pesquisa puramente exploratória ou indutiva, em que hipóteses e análises emergem dos dados: forçar um plano a priori onde não há um distorce o trabalho. Não se aplica bem a estudos sobre dados já coletados, nem a desenhos que dependem de descoberta serendípica. Não é remédio universal: Chambers e Tzavella (2022) lembram que o Registered Report não corrige por si erros de execução, fraude ou problemas de generalização. E não se aplica sem custo: o processo de dois estágios é mais lento e trabalhoso, e a oferta de periódicos que aceitam o formato, embora crescente, ainda é limitada em muitas áreas. Confundir a presença de um protocolo registrado com qualidade garantida é um erro de leitura do formato.
Aplicações por área
- Psicologia e ciências cognitivas: berço do formato; Scheel e colaboradores (2021) mostraram que a fração de resultados positivos cai de cerca de 96% na literatura padrão para perto de 44% em Registered Reports.
- Biomedicina e ensaios clínicos: uso crescente em replicação e ensaios; a natureza confirmatória do RCT casa com o desenho do formato.
- Economia e ciências sociais: adoção mais recente, dirigida contra p-hacking e viés de publicação no trabalho empírico.
- Ecologia e comportamento animal: periódicos da área passaram a oferecer o formato para reduzir o viés a favor de achados surpreendentes.
Armadilhas comuns
A primeira armadilha é tratar o aceite em princípio como aceite incondicional: ele vale apenas se o autor seguir o protocolo do Estágio 1, e desvios não declarados quebram o compromisso. A segunda é confundir Registered Report com pré-registro simples: o pré-registro deposita o plano, mas não inclui revisão por pares prévia nem garantia de publicação. A terceira é submeter como confirmatório um estudo que é exploratório, espremendo uma hipótese a posteriori num molde a priori. A quarta é subestimar o tempo: o ciclo de dois estágios exige planejar a submissão do Estágio 1 com folga antes da coleta. A quinta é apresentar análises exploratórias do Estágio 2 como se fossem confirmatórias; o formato permite achados não registrados, mas exige rotulá-los claramente como exploratórios.