Definição estendida
Revisão guarda-chuva (umbrella review) é uma revisão de revisões: em vez de sintetizar estudos primários, ela reúne, compara e contrasta os achados de várias revisões sistemáticas e meta-análises sobre um mesmo tema ou conjunto de questões relacionadas. É um dos níveis mais altos da síntese de evidências, situado acima da revisão sistemática individual porque toma esta última como unidade de análise. Aromataris e colaboradores (2015) formalizaram o método, definindo como buscar, selecionar e avaliar revisões existentes e como apresentar de forma estruturada o que cada uma encontrou, incluindo a qualidade metodológica de cada revisão incluída. Ioannidis (2009) já apontava a revisão guarda-chuva como forma de integrar evidência de múltiplas meta-análises e mapear, de uma vez, um campo inteiro. Fusar-Poli e Radua (2018) condensaram a prática em regras operacionais, enfatizando que a robustez de uma revisão guarda-chuva depende de avaliar criticamente as revisões que a compõem, não apenas de empilhá-las.
Quando se aplica
A revisão guarda-chuva se aplica quando já existem várias revisões sistemáticas sobre um tema e a pergunta passou a ser de outra ordem: o que o conjunto dessas revisões diz, onde concordam e onde divergem. Aplica-se ao mapeamento amplo de um campo maduro, em que sintetizar estudos primários seria redundante diante das revisões já publicadas. Aplica-se à comparação de intervenções múltiplas e à identificação de lacunas entre revisões. Aplica-se à tomada de decisão de alto nível, como diretrizes e política, em que se precisa de uma visão consolidada e da força relativa das evidências. Fusar-Poli e Radua (2018) recomendam-na quando o objetivo é uma fotografia panorâmica e crítica de uma literatura já bem revisada, com avaliação explícita da qualidade de cada revisão incluída.
Quando NÃO se aplica
A revisão guarda-chuva não se aplica quando há poucas ou nenhuma revisão sistemática sobre o tema: sem revisões a sintetizar, falta sua unidade de análise, e o caminho correto é a revisão sistemática de estudos primários. Não se aplica para responder a uma pergunta nova e específica que as revisões existentes não cobriram. Não se aplica como atalho que dispensa rigor: herda os vieses das revisões incluídas, e uma revisão guarda-chuva construída sobre revisões fracas apenas amplifica suas falhas. Não se aplica sem avaliar a sobreposição de estudos primários entre as revisões, que pode inflar a aparência de evidência ao contar o mesmo estudo várias vezes. E não se aplica como substituto da meta-análise quando a pergunta exige reanalisar os dados primários, e não resumir conclusões de segunda mão.
Aplicações por área
- Medicina e saúde: campo de origem do método, com revisões guarda-chuva orientando diretrizes a partir de muitas meta-análises.
- Saúde mental: área que consolidou regras próprias de condução, com forte avaliação da qualidade das revisões.
- Saúde pública e política: síntese de alto nível para decisões que integram muitas evidências.
- Educação e ciências sociais: mapeamento de campos maduros com múltiplas revisões já publicadas.
Armadilhas comuns
A primeira armadilha é conduzir uma revisão guarda-chuva onde quase não há revisões sistemáticas, faltando a matéria-prima do método. A segunda é empilhar revisões sem avaliar a qualidade de cada uma, herdando e amplificando seus vieses. A terceira é ignorar a sobreposição de estudos primários entre revisões, contando a mesma evidência mais de uma vez. A quarta é tratá-la como meta-análise, quando ela resume conclusões e não reanalisa dados primários. A quinta é apresentá-la como nível máximo de evidência por definição, esquecendo que sua força depende inteiramente da qualidade das revisões que reúne.