Definição estendida
Diretrizes de reporte são listas de verificação padronizadas que especificam o conjunto mínimo de informações que um artigo de determinado desenho de estudo deve relatar para que o leitor possa julgar sua validade e, idealmente, reproduzi-lo. Não dizem como conduzir a pesquisa, mas o que precisa constar no relato. Cada desenho tem a sua. O CONSORT, atualizado por Schulz e colaboradores (2010), cobre ensaios clínicos randomizados de grupos paralelos, com um checklist e um fluxograma de participantes que se tornaram padrão. O STROBE, de von Elm e colaboradores (2007), faz o mesmo para estudos observacionais de coorte, caso-controle e transversais, em vinte e dois itens. A esses somam-se o PRISMA, para revisões sistemáticas, o ARRIVE, para estudos com animais, e dezenas de outros. Simera e colaboradores (2010) descrevem a rede EQUATOR, que cataloga e dissemina essas diretrizes, mostrando que reporte transparente e completo aumenta a confiabilidade e a utilidade da pesquisa. O princípio comum é que um estudo só pode ser avaliado se for relatado por inteiro.
Quando se aplica
As diretrizes de reporte se aplicam na redação de um manuscrito, idealmente desde o início, como roteiro do que cada seção deve conter. Aplica-se o CONSORT a ensaios randomizados, o STROBE a estudos observacionais, o PRISMA a revisões sistemáticas, cada um conforme o desenho. Aplicam-se à submissão: muitos periódicos exigem o checklist preenchido e o número da página de cada item. Aplicam-se à revisão por pares, como referência objetiva para apontar o que falta no relato. Aplicam-se à leitura crítica e à síntese de evidências, em que a ausência de itens-chave sinaliza relato incompleto. E aplicam-se ao ensino de escrita científica, oferecendo um padrão verificável em vez de convenção tácita. Consultar a rede EQUATOR é o caminho para encontrar a diretriz certa para cada tipo de estudo.
Quando NÃO se aplica
As diretrizes de reporte não se aplicam como avaliação da qualidade do estudo: um ensaio mal desenhado pode ser relatado de forma completa, e seguir o CONSORT não torna válido um método falho. Reporte e rigor são coisas distintas, e confundi-los é o erro mais comum. Não se aplicam como camisa de força metodológica: dizem o que relatar, não o que fazer. Não se aplica a diretriz errada ao desenho errado, usar o STROBE para um ensaio randomizado, por exemplo, deixa de fora itens essenciais. Não se aplicam como substituto da avaliação de risco de viés, que é uma análise separada da completude do relato. E não se aplicam como garantia de reprodutibilidade por si sós: relatar bem é condição necessária, não suficiente, para que outro pesquisador refaça o estudo.
Aplicações por área
- Ensaios clínicos: CONSORT, com checklist e fluxograma de participantes exigidos por grande parte dos periódicos médicos.
- Epidemiologia e estudos observacionais: STROBE, para coorte, caso-controle e transversais.
- Síntese de evidências: PRISMA, par natural das revisões sistemáticas e meta-análises.
- Pesquisa pré-clínica com animais: ARRIVE, voltado à transparência de experimentos in vivo.
Armadilhas comuns
A primeira armadilha é confundir reporte completo com qualidade metodológica: seguir a diretriz não conserta um desenho ruim. A segunda é aplicar a diretriz errada ao tipo de estudo, perdendo itens específicos do desenho correto. A terceira é tratar o checklist como formalidade de submissão, preenchido sem que os itens estejam de fato no texto. A quarta é supor que o reporte substitui a avaliação de risco de viés, quando são análises complementares e distintas. A quinta é ignorar a rede EQUATOR e improvisar o relato, quando existe uma diretriz consolidada para quase todo desenho, pronta para guiar a escrita desde a primeira versão.