Traduzir um manuscrito palavra a palavra do português para o inglês é uma das rotas mais curtas para a rejeição em periódicos Q1, e quase nunca pelo motivo que o autor supõe. O parecerista raramente recusa o texto por uma escolha de vocabulário ou um deslize gramatical isolado. Recusa porque a prosa, ainda que perfeitamente compreensível, soa como um raciocínio mal montado. O problema não está nas palavras. Está na estrutura retórica que a tradução literal transporta intacta do idioma de origem. É também por isso que revisar o texto palavra a palavra não corrige a rejeição: conserta a superfície e deixa a falha onde ela está.
A evidência de que a retórica acadêmica varia entre línguas é específica para o par português-inglês, não emprestada de outros idiomas. Hirano (2009)1 comparou introduções de artigos de pesquisa em português brasileiro e em inglês dentro de um mesmo subcampo e encontrou padrões organizacionais distintos: as introduções em inglês seguem de perto o modelo CARS de Swales, enquanto as escritas em português seguem outra lógica de entrada. Junqueira (2013)2 documentou, em gêneros acadêmicos brasileiros, uma evitação de conflito que se estende ao artigo de pesquisa: o texto recomenda sem ressalvar, avalia sem criticar de frente. Para o leitor anglófono, treinado a esperar a delimitação explícita de uma lacuna e o posicionamento crítico diante da literatura, essa cortesia lê-se como ausência de argumento.
O fenômeno tem nome na literatura. Moreno et al. (2012)3, num levantamento com mais de mil pesquisadores, propõem a hipótese de transferência retórica para explicar por que a seção de discussão é a mais difícil de redigir em inglês, dificuldade que não desaparece quando a proficiência aumenta. Se a causa fosse apenas domínio do idioma, a dificuldade cairia com a fluência; ela não cai. Existe ainda um piso que nenhum desses estudos disputa: prosa que rompe a fluência esperada é penalizada no julgamento mesmo quando permanece compreensível. Peters (2023)4 mostra que a disfluência de processamento dispara avaliação epistêmica negativa, e diretrizes editoriais com frequência enquadram o autor não nativo como deficiente em vez de oferecer crítica construtiva (McKinley & Rose, 2018)5. A leitura de transferência não é consenso: Kubota e Lehner (2004)6 alertam que tratar a retórica do autor como falha cultural perpetua um binário problemático entre o inglês e as demais línguas. A causa última segue em aberto. A consequência operacional, não.
A figura abaixo quantifica essa sobrecarga. Hanauer e Englander (2011)7, comparando a escrita de artigos em inglês como L2 e na língua materna entre 141 cientistas, mediram o aumento percebido em três dimensões: dificuldade, ansiedade e insatisfação.
A leitura operacional é direta: a sobrecarga de escrever em inglês como L2 é real e medível em mais de uma dimensão, e não se resume a vocabulário. E, como mostra Moreno et al. (2012)3, ela se concentra na discussão, a seção de maior carga retórica, e não onde a carga é apenas terminológica. Isso desloca o problema da palavra para a arquitetura do argumento, e explica por que um texto sem nenhum erro de gramática ainda pode voltar com o parecer de que o inglês precisa de revisão.
A regra que pareceristas de Q1 verificam não é se o inglês está correto, e sim se o texto executa os movimentos retóricos do idioma-alvo. A introdução precisa estabelecer uma lacuna de forma explícita, não apenas apresentar o tema. A discussão precisa promover a contribuição do trabalho e posicioná-la contra a literatura, em vez de repetir resultados. A avaliação de trabalhos anteriores precisa ser direta onde o gênero em inglês espera direção. Nenhum desses movimentos é uma questão de vocabulário.
Daí a distinção que define o tipo de correção necessária. Quando a falha é lexical, um termo impreciso, uma colocação estranha, a revisão palavra a palavra resolve. Quando a falha é retórica, a lacuna que não foi delimitada, a discussão que não promove, a crítica que não critica, só a reconstrução resolve, porque a estrutura precisa ser refeita no registro do idioma-alvo. A maior parte das rejeições atribuídas a “inglês ruim” pertence à segunda categoria, e é justamente a que sobrevive a uma revisão superficial. Reescrever a frase preservando a arquitetura do português apenas produz um português gramaticalmente inglês.
A escolha entre as duas explicações em disputa não altera a ação. Se o problema vem da transferência de padrões do português, a correção é reconstruir no padrão do inglês. Se vem de um viés geral contra a disfluência, a correção é a mesma: produzir prosa que o leitor-alvo processe como nativa. Sob as duas leituras, o trabalho recai sobre a estrutura, não sobre o léxico, e é por isso que tratar tradução acadêmica como substituição de palavras é diagnosticar o problema na camada errada.
Um manuscrito que se lê como argumentado nativamente no idioma-alvo remove o gatilho de rejeição evitável mais comum entre autores não nativos. O custo de ignorá-lo é assimétrico: trabalhos metodologicamente sólidos perdem a chance de uma revisão por mérito porque chegam ao parecerista vestidos com a retórica errada. A reconstrução retórica não embeleza o texto. Ela devolve ao trabalho a possibilidade de ser julgado pelo que de fato descobriu.