Definição estendida
Pré-registro de pesquisa é o depósito formal — em repositório com timestamp verificável — de hipóteses, métodos, plano de análise estatística e critérios de inclusão/exclusão antes da coleta de dados ou (em alguns desenhos) antes da análise. O propósito central é distinguir testes confirmatórios (hipótese específica registrada antes dos dados) de exploratórios (análises post hoc), reduzindo o espaço para p-hacking, harking (hypothesizing after results known) e o “garden of forking paths” — caminhos múltiplos de análise que inflam taxa de falso-positivo. Plataformas principais: Open Science Framework (OSF), AsPredicted, ClinicalTrials.gov (ensaios clínicos, exigência regulatória), PROSPERO (revisão sistemática). Nosek, Ebersole, DeHaven e Mellor (2018, PNAS) sintetizaram a “revolução do pré-registro” e descreveram o crescimento exponencial de adoção desde 2012. Munafò et al. (2017, Nature Human Behaviour) articularam pré-registro como elemento central no manifesto por ciência reprodutível. Registered reports — modalidade mais rigorosa em que periódico aceita o estudo com base no protocolo, antes de saber resultados — são o padrão-ouro contemporâneo, oferecidos por mais de 300 periódicos.
Quando se aplica
Pré-registro aplica-se em qualquer estudo confirmatório de hipótese específica: ensaios clínicos (regulatoriamente exigido), experimentos psicológicos, estudos observacionais com hipótese definida, análises secundárias de bancos públicos com hipótese específica. É fortemente recomendado em propostas de financiamento (FAPESP e CNPq incentivam; agências europeias e americanas integram em alguns programas). É exigência crescente em revisão sistemática (PROSPERO ou registro equivalente) — pré-registro do protocolo da revisão antes de iniciar busca. Registered reports aplicam-se especialmente em estudos com sample size grande, custo alto, ou onde resultados null seriam descartados pelo viés de publicação tradicional.
Quando NÃO se aplica
Pré-registro estrito não se aplica a pesquisa puramente exploratória — descobrir padrões em dados sem hipótese prévia é prática legítima e não deve ser disfarçada de confirmatória. Não se aplica a análises secundárias quando dados foram analisados anteriormente — pré-registro requer que pesquisador não tenha visto os dados ainda; alternativa para dados existentes é “blinded analysis” ou pré-registro condicional declarando o que já foi visto. Não se aplica em pesquisa qualitativa pura no sentido de pré-especificar análise — mas pré-registro de pergunta de pesquisa, método de coleta e estratégia analítica é prática crescente. Não substitui poder estatístico, transparência metodológica e reproducibilidade — é instrumento complementar, não substituto.
Aplicações por área
— Saúde e biomédicas: ClinicalTrials.gov é regulatório desde 2007 (FDA Amendments Act); ICMJE exige registro como pré-condição para submissão. — Psicologia: OSF cresceu rapidamente desde 2012; muitos periódicos top-tier oferecem registered reports. — Economia experimental e ciência política: AsPredicted e EGAP (Evidence in Governance and Politics) consolidaram a prática. — Educação: Society for Research on Educational Effectiveness recomenda pré-registro em estudos de intervenção.
Armadilhas comuns
A primeira armadilha é tratar pré-registro como camisa de força — desvios do plano original são legítimos quando justificados e transparentes; relatório final deve documentar mudanças e razões. A segunda é pré-registro vago: protocolo deve especificar análise primária com detalhe suficiente para que análise diferente seja claramente post hoc. Plano genérico (“vamos rodar regressão”) deixa espaço para flexibilidade que esvazia o propósito. A terceira é confundir pré-registro com pré-publicação — pré-registro é depósito de protocolo, não de manuscrito; preprint é o que cobre o segundo. A quarta é registrar e nunca publicar resultados null, neutralizando o efeito anti-viés de publicação — boa prática é depositar relatório final mesmo quando hipótese não se confirma. A quinta é assumir que pré-registro garante validade — protocolo mal-desenhado, com poder baixo ou medida problemática, não vira bom estudo só por ser pré-registrado.